Terça-feira, 3 de Março de 2009

Ainda o Congresso do PS

Escrevi no primeiro dia do Congresso que houve um excesso de personalização do mesmo em torno de Sócrates. Um Congresso em que, tal como diz André Freire hoje no Público, não existiu debate.

Bom, mas apesar disso, houve uma escolha profundamente acertada do ponto de vista da estratégia eleitoral do PS que foi feita, e que é preciso reconhecer. A de Vital Moreira para encabeçar a lista ao Parlamento Europeu. Foi profundamente acertada, mas não pelas razões que João Rodrigues invoca.

Vital Moreira é uma escolha certeira porque o seu passado de militante do PCP, membro ilustre da Constituinte, e o facto de ter um perfil intelectual de excelência fazem dele a pessoa mais indicada da àrea de influência do PS para combater o derrame de votos à esquerda do partido.

As análises dos jornais - incluindo o Público- e dos blogues que se centraram apenas na personalização são por isso assustadoramente parciais.

Mas mais grave do que isso são 1)ignorantes do processo eleitoral por um lado e 2)ahistóricas por outro.

1) Ignorantes do processo eleitoral:
Os partidos reforçam a presença do líder em resposta à forma como o eleitorado os valoriza. Ou seja, estamos perante uma relação mútuamente dependente. Não estamos numa sociedade altamente interessada em debater políticas em que os partidos são os vilões que recusam esses debates. Portugal é um país em que para o bem e para o mal os lideres políticos sempre foram fundamentais. Qualquer partido político nesse contexto que esteja interessado em ganhar votos age por isso racionalmente ao valorizar os lideres. E isso é feito do BE ao CDS-PP.

2) Ahistóricos
Do que se escreveu nos blogues e nos jornais nos últimos dias, parece que Sócrates veio inaugurar a personalização da política dentro do PS. Antes do Sócrates, é claro, toda a gente sabe que o PS era um partido de massas em que apenas se discutiam políticas.

Isto é mentira, claramente. Tanto o PS como o PSD foram partidos criados de cima para baixo, por uma elite social. E tendo em conta que Mário Soares sobreviveu a Sá Carneiro, é legítimo até dizer que o PS terá ficado com uma cultura mais personalista do que o próprio PSD.

O que mudou com Sócrates não foi a personalização da política, que é algo caracteristico e central da nossa democracia. O que mudou foi que pela primeira vez o lider do PS teve uma maioria absoluta.

É esse acesso ao Estado, é essa margem adicional de controle dos recursos públicos que faz a diferença da governação Sócrates.

Que depois tem reflexos na organização partidária. Mas não glorifiquemos um passado que nunca existiu.