Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009
Faltam os factos
Essa politização da realidade ficou clara nos últimos dias por exemplo nas declarações de Freitas do Amaral e João Cravinho. Ambos assumiram posicionamentos opostos em relação ao caso, embora focando aspectos diferenciados do processo. Freitas desvalorizou o sucedido. Segundo ele, tendo em conta que Sampaio promulgou e que Durão Barroso não revogou, não houve qualquer ilegalidade. Já Cravinho nega que a ZPE se pudesse alterar.
Mas sobra a dúvida: Quem poderá dizer que estes dois ex-Ministros de Sócrates não estão a reagir reflectindo a forma como sairam do governo? (Freitas bem; Cravinho mal)
Estes posicionamentos servem sobretudo para ilustrar a forma como os portugueses seguem estas notícias. Por enquanto, e à falta de certezas, cada um interpreta segundo as suas convicções políticas, as suas simpatias partidárias e a confiança em relação aos políticos. (ver post abaixo).
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Ideias feitas sobre a Política em Portugal

Não sou jurista, nem jornalista. Interessa-me sobretudo o impacto que notícias como esta podem ter na forma como os portugueses olham para a política.
Em 2008 (trabalho de campo realizado em Dez. de 2007), um inquérito do Eurobarómetro foi totalmente dedicado ao tema da Corrupção. Sem surpresas, verificamos que em Portugal 95% dos inquiridos concorda com a seguinte frase "A corrupção é um grande problema no nosso país". Só na Grécia o sentimento ainda é mais generalizado (ver gráfico acima).
Aqui temos uma atitude que atravessa todas as classes sociais, regiões e idades. Eis então algo que nos une: além do gosto pelo bacalhau, pelo sol e pelo mar, a convicção de que "andam todos a roubar".
Este consenso talvez ajude a compreender a relativa indiferença efectiva dos eleitores no passado perante alguns casos de suspeição de corrupção.
Isto faz sentido? Faz, se olharmos para quem os portugueses consideram mais corruptos dentro das instituições: os políticos a nível nacional (mais do que a nível local e regional). Quando se fala de corrupção em Portugal, pensa-se em negócios do Estado, que obviamente não envolvem a população em geral.
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Jornalismo Lento
"Como qualquer político sabe, a ciência política não é uma ciência (já lhe chamaram jornalismo lento). O próprio Huntington não foi admitido na Academia Nacional das Ciências - tentou duas vezes - porque o seu uso de uso de equações matemáticas para relacionar desenvolvimento económico e instabilidade política fora denunciado como "pseudo-ciência" e "um disparate" [...] segundo um dos seus críticos, usava um tipo de linguagem que dava a ilusão de ciência sem a substância desta".
Huntington sofreu estas vicissitudes e nunca entrou na Academia Nacional das Ciências, ok. Mas não é verdade, tal como sugere o parágrafo anterior, que não haja cientistas políticos nessa Academia.
A secção de "Social e Political Sciences" integra 40 cientistas sociais. Eis alguns nomes que me parecem particularmente importantes:
Philip Converse, Gary Cox, Robert Dahl, Ralph Dahrendorf, John Ferejohn, Morris Fiorina, Robert Keohane, Robert Putnam, Kenneth Shepsle, Theda Skocpol, Sidney Verba.
São dos maiores nomes nos seguintes campos: a teoria democrática (Dahl); a acção dos políticos em contextos estratégicos (Cox), as instituições e os Estados (Keohane; Shepsle, Skocpol). Mas porventura o maior grupo é precisamente aquele que agrega cientistas políticos que estudam o comportamento dos indivíduos na política (Converse, Fiorina, Ferejohn, Putnam, Verba). São estes últimos que estabelecem o tipo de relações que Cutileiro apelida de "pseudo-ciência".
A questão parece-me ser que Huntington está para a ciência política um pouco como a Naomi Klein está para a sociologia. São muito mais eficazes a veicular ideias que na altura parecem boas e a dialogar com o público em geral do que a produzir trabalho académico.
(Ver aqui a lista de cientistas políticos e sociais que integram aquela Academia.)
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
A História e Bush
Uma Coroação Republicana
Quando os pais da Constituição Americana escolheram a sua forma de governo em 1787, não havia regimes parlamentares. O que havia eram monarquias, umas que se poderiam chamar mais constitucionais do que outras. É certo que o regime americano foi fundado contra a coroa inglesa, mas também é verdade que esta funcionou como matriz das possibilidades constitucionais da época.
Tal como o Rei inglês de meados do século XVIII, o Presidente americano assumiu-se como o chefe do Executivo. Do mesmo modo não se estabeleceu a responsabilidade do Presidente perante o Parlamento, ou Congresso, como preferiram chamar-lhe. Nessa altura, em Inglaterra, o governo dependia apenas do monarca que obviamente não prestava contas ao eleitorado. Pelo contrário, e tal como se convencionou nos EUA, os poderes do Parlamento inglês e do monarca eram separados. Portanto, as características fundamentais da Constituição americana, nomeadamente a independência dos órgãos executivo e legislativo bem como a separação de poderes, vieram replicar o que então existia na Inglaterra.
Mas com uma diferença que viria a revelar-se crucial para a durabilidade do regime: a eleição do Presidente. Considerou-se a hipótese de eleger o Presidente de forma directa ou de ser o Congresso a escolhê-lo, e acabou por se concordar numa solução intermédia: constituiu-se um colégio de delegados, eleitos pelo povo, que escolheriam o próximo Presidente. Embora o colégio eleitoral se mantenha até hoje, rapidamente se transformou num arcaísmo, sendo que os delegados deixaram de ter qualquer independência de voto.
É esta eleição directa (para todos os efeitos) do Presidente, que veio dar origem ao primeiro regime em que o poder executivo, legitimado nas urnas, se conjuga com a representação simbólica do Estado. Na velha Europa, os poderes executivos dos monarcas que serviram como modelo ao regime Americano não resistiram à mudança social que exigiu maior poder às instituições políticas representativas. Nos casos em que os monarcas conseguiram apesar de tudo manter-se como chefes de Estado, perderam os poderes executivos.
É à luz desta importância simbólica que se deve avaliar o apoio que Barack Obama tem hoje nos EUA (e a gravidade da impopularidade de Bush nos últimos tempos). Segundo a Gallup, 78 por cento dos americanos são favoráveis ao novo Presidente. Aqueles que agora prevêem que o apoio se irá desfazer, esboroar rapidamente perante as duras realidades da política, da crise internacional e da conjuntura esquecem algo de fundamental:
Quando consideramos um chefe do executivo num qualquer regime parlamentar podemos considerar que o apoio que é dado pelo eleitorado no início de um mandato depende apenas das expectativas em relação à governação. No entanto, quando olhamos para a percentagem de opiniões favoráveis em relação a um Presidente americano no momento da tomada de posse temos de considerar que esta não resulta apenas dessas questões concretas. Depende muito das percepções dos eleitores sobre a forma como o novo Presidente representa a República e a Nação. Ao vencer a eleição em Novembro, Barack Obama reavivou o “sonho americano”. Agora, na tomada de posse, transformou esse sonho num stock importante de apoio que o torna menos vulnerável às intempéries da conjuntura.
(Publicado no Jornal de Negócios, 22 Janeiro 2009)