No último fim-de-semana o Secretariado foi eleito e não houve grandes alterações na composição do mesmo. Eis como saiu a notícia no Público de hoje.
José Sócrates "cavaquizou" o PS?
09.03.2009, São José Almeida
A maioria absoluta deu a José Sócrates uma autoridade sobre o PS que pode ser considerada inédita. Tanto que a forma como o PS está disciplinado faz lembrar a forma como Cavaco Silva foi domesticando, "cavaquizando", o PSD entre 1985 e 1995, década em que presidiu ao partido e foi primeiro-ministro. Mas os investigadores que trabalharam sobre este tema, Marina Costa Lobo, António Costa Pinto e Pedro Tavares de Almeida, estabelecem diferenças claras e rejeitam que haja uma "socratização" do PS.
Marina Costa Lobo, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e autora da obra Governar em Democracia, diz que não se pode falar nem em "cavaquização", nem em governamentalização do PS por Sócrates, fenómeno que se verificou com Cavaco Silva e que a investigadora estudou. "A governamentalização mede-se na composição da direcção do partido. Cavaco foi progressivamente incluindo mais pessoas do Governo nos órgãos do topo do partido", explica, e o resultado foi que "as reuniões de topo do partido eram praticamente iguais às do Governo e não serviam para transmitir o pulsar do partido e da sociedade". Em relação ao PS actual, Costa Lobo diz que se "fala muito de 'cavaquização'" mas que, "surpreendentemente, a percentagem não é tão elevada como foi com Cavaco". E aponta os números: no anterior secretariado do PS, em 20 membros oito são do Governo, o que dá 40 por cento. Uma percentagem que se mantém depois de a comissão política ter eleito ontem os 11 membros não inerentes naquele órgão de direcção.
55% versus 40% no comité
E Cavaco Silva? Em 1995, o então primeiro-ministro PSD tinha 55 por cento de membros do Governo na comissão política, diz a investigadora. Por fim Costa Lobo frisa que "os membros do Governo que estão na direcção do PS têm também carreira no partido, enquanto Cavaco levou para a direcção do PSD pessoas que tinha ido buscar fora e que tinha criado como dirigentes políticos". E conclui: "Não se pode dizer que tenha havido um acentuar da 'socratização' neste congresso do PS."
Já António Costa Pinto, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e co-autor da obra Quem Governa a Europa do Sul?, diz que "há semelhanças entre a liderança partidária de Cavaco e de Sócrates, no que se refere à imposição da figura do líder em relação ao partido e ao grupo parlamentar", mas sublinha que "há uma diferença determinante": "Cavaco dirigiu muito o partido a partir do Governo, a direcção era composta por ministros. Sócrates faz o mesmo, mas como foi deputado, dirigente nacional e distrital, deu mais atenção ao partido."
Costa Pinto adverte ainda para que "a governamentalização existente em Portugal "tem a ver com o sistema político e com o facto de os partidos dependerem do líder para nomear os deputados". E defende que "em Inglaterra isto seria impossível, até em França há dinâmicas locais".
Pedro Tavares de Almeida, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e co-autor da obra Quem Governa a Europa do Sul?, diz que "no PS a subordinação do 'partido-organização' ao 'partido no governo' não é um fenómeno". Na sua opinião, ele "já era visível com António Guterres".
O investigador admite que "aparentemente essa tendência para a governamentalização tem-se acentuado", mas considera que o assunto precisa de ser melhor estudado para poder ser provado. E sublinha que há, em Portugal, "um contexto geral de forte personalização das lideranças políticas". O que faz com que, ao ter "conquistado a primeira maioria absoluta socialista", José Sócrates "viu naturalmente reforçada tanto a sua margem de autonomia como a capacidade de controlo do partido".
"Cavaco dirigiu o partido a partir do Governo e Sócrates dá mais atenção ao partido", diz Costa Pinto