As opiniões que li
sobre a recente sondagem da Universidade Católica para marcar o primeiro ano de
governo de Passos Coelho foram unânimes: o governo sofre um grande desgaste; a
Esquerda ultrapassa a Direita; e o Bloco de Esquerda está prestes a tornar-se no
próximo Syriza. Nenhuma destas
afirmações se pode inferir do inquérito em causa, e custa ver todos a repetir o
mesmo, como que adormecidos, entre a
chegada do Europeu de futebol, do sol, das férias.
Esta sondagem não
serve para fazer previsões sobre as eleições legislativas, porque estas não
estão no horizonte. Contam sobretudo como um barómetro de popularidade dos
respectivos partidos, e da performance do governo. Se as eleições fossem amanhã, considerações
estratégicas impor-se-iam nos cálculos eleitorais dos portugueses. Isso iria
favorecer os grandes partidos, e ainda mais a direita que tem sempre sabido
oferecer esta mais-valia aos portugueses, ao contrário da esquerda.
A verdade é que
tendo em conta a autêntica avalanche de más notícias e de deterioração da realidade
social dos últimos doze meses, bem como da enorme incerteza sobre o futuro,
esta sondagem não significa grande desgaste, numa altura em que vocalizar
descontentamento com o governo não teria qualquer custo. Do mesmo modo, uma
vitória muito alargada dos partidos de esquerda em especial do PS, nas próximas
autárquicas não será necessariamente reproduzida nas legislativas. Cavaco Silva
enquanto Primeiro Ministro também perdeu as autárquicas em 1989 e ganhou as
legislativas seguintes, inclusive reforçando a maioria absoluta do PSD.
A sondagem também
não indicia uma maioria da esquerda. As maiorias de esquerda nunca foram
concretizadas num governo de coligação em Portugal – portanto essa maioria só
teria significado se o PS ultrapassasse o PSD nas intenções de voto o que não
acontece nesta sondagem. A principal clivagem na política portuguesa hoje não é
entre a esquerda e a direita, mas entre os partidos que apoiam, com mais ou
menos nuances, o programa da troika, e aqueles que se opõem a ele. E a sondagem
indica que os portugueses continuam a apoiar em larga maioria os partidos que
assinaram o acordo.
Também não se vê
que Louçã seja o Tsiparas da política portuguesa. O BE já demonstrou a sua
vocação única de protesto na política portuguesa, assim delimitando a sua
capacidade de crescimento nas últimas eleições quando já o acordo estava
assinado e os portugueses sabiam o que votavam. Na Grécia, por enquanto o líder
da Syriza não exclui formar governos de coligação com outros partidos.
Embora não mostre nem
que há um grande desgaste do governo, uma maioria de esquerda, ou um Syriza
português, a sondagem mostra sim degradação no seio do governo, ou mais
precisamente no PSD. De facto, os portugueses responsabilizam apenas o PSD
pelas políticas do governo, poupam o CDS-PP e apreciam Vitor Gaspar. Na
degradação do PSD haverá uma componente política importante. O recente episódio
Relvas, entre por um lado as questões das secretas, e por outro a impropriedade
no caso com o jornal Público, revela algumas continuidades com o governo de
Santana Lopes. Esse governo foi tendo uma sucessão de problemas no núcleo duro
de coordenação política com grande erosão até à intervenção de Sampaio. A
considerável fragilidade do PSD político no governo não augura nada de bom para
a força do Primeiro Ministro, e impõe uma remodelação rápida. Porque todos os
governos de coligação em Portugal caíram por implosão, e nenhum cumpriu um
mandato. Já a capacidade de Portas e do CDS se manterem imunes ao desgaste
demonstra a inabilidade política de Passos Coelho.
Finalmente, a
popularidade de Gaspar é uma faca de dois gumes para o Primeiro-Ministro. A
sombra do Ministro das Finanças protege, mas prejudica a capacidade política de
Passos. Passado um ano de governo, esta sondagem mostra que este é o Governo de
Gaspar.
(Do Jornal de Negócios de 14 de Junho)