Sexta-feira, 6 de Julho de 2012
Game-Changer
A decisão do Tribunal Constitucional pela inconstitucionalidade dos cortes nos subsídios aos funcionários públicos e pensionistas constitui um ponto de viragem desde o pedido de ajuda à troika em 2011. Porque coloca o governo perante uma escolha absolutamente crucial: ou alarga o âmbito dos cortes, se quer manter o calendário imposto pela troika, ou renegoceia o calendário, se quer manter as hipóteses de sobrevivência política do executivo. Passos Coelho já reagiu dizendo que opta pela primeira opção, mas com o aproximar de 2012, a impossibilidade efectiva da aplicação da medida tornar-se-á provavelmente mais evidente. Esta medida constitui o primeiro sério entrave político à imposição da agenda da troika em Portugal. O regime semi-presidencial português obriga à distribuição de poder entre o governo, o Presidente, a Assembleia e os Tribunais, entre eles o Tribunal Constitucional. Muitos terão olhado para Cavaco Silva, pensando que este poderia de alguma forma moderar o impulso radicalizante do executivo de Passos Coelho. Rapidamente as ilusões se foram desfazendo: a conformidade ideológica entre Cavaco e o Executivo explica a inacção presidencial. O Tribunal Constitucional no entanto espelha a composição parlamentar e as suas decisões reflectem o conjunto das tendências políticas. A acção do Tribunal é pois perfeitamente legítima enquanto intérprete da conformidade constitucional da governação.
Guiné Equatorial e CPLP, a sequela
Em 2010 a entrada da Guine
Equatorial na CPLP esteve iminente. Houve na altura vários países membros que
pareciam disponíveis para aceitar esta petro-ditadura como membro de pleno
direito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Em grande medida devido à
intervenção de Portugal, e à aquiescência do Brasil e de Angola, bem como de
uma mobilização da sociedade civil lusófona isso acabou por não acontecer. Num
comunicado final duas razões foram apontadas para a decisão: por um lado pelo
facto deste pais não ser um pais de língua portuguesa. Por outro, visto a Guiné Equatorial ser uma das ditaduras mais
repressoras do mundo. Leu bem, do mundo. Mas a questão não morreu ali. O
comunicado dava a entender que mediante esforços da Guiné Equatorial nestas
duas frentes, através da aplicação de um Plano de Acção, este país poderia vir
a integrar a CPLP.
Fastforward para 2012. Dentro de dias irá
colocar-se de novo, na cimeira da CPLP, a 20 de Julho em Maputo , a mesma questão
da entrada da Guiné Equatorial. Poderá parecer um preciosismo estar preocupada
com esta questão. A Europa arde, Espanha desequilibra-se, Portugal definha, porque
não se há-de encorajar a entrada de um país em crescimento na Comunidade de
Língua pPortuguesa? É precisamente devido ao declínio efectivo e anunciado da Europa
que a CPLP se torna mais importante.
Desta vez,
parece que os apologistas da entrada da Guiné Equatorial na CPLP estão mais bem
preparados. Em particular, desde aquela cimeira, foram organizadas duas missões
de observação (uma emMaio de 2011, outra
em Junho passado) para monitorizar “o
progresso” daquele país nos critérios .definidos
no Plano de Acção Não existe qualquer relatório disponível para a missão mais
recente, mas tive acesso através da imprensa às conclusões do relatório da
primeira missão.
Delas – e apesar do
tom entusiasta que os autores do relatório pretendem imprimir ao relatório - depreende-se
claramente que não houve quaisquer progressos no terreno desde 2010. O que
houve foram alterações legislativas que estão longe de ter melhorado a vida do
cidadão comum. Do ponto de vista da introdução da língua portuguesa, desta vez
promete-se estar para breve a abertura de um centro de língua portuguesa na
capital do país. Do ponto de vista político foi prometida uma revisão
constitucional que incluiria a limitação dos mandatos presidenciais (foi
aprovado 2 mandatos de 7 anos). Nem um centro de língua transforma a Guiné
Equatorial num país de língua portuguesa, nem a revisão constitucional altera os
abusos dos direitos humanos, a falta de pluralismo político, a corrupção e a
repressão. O país continua na lista negra da Human Rights Watch e da
Transparency International. A sua adesão só pode descreditar a CPLP.
Básicamente, a
Guiné Equatorial anda a fazer reformas “para lusófono ver”. Em 2010 tinha
publicado um mero decreto que instituía o português como língua oficial do
país. Isto não pode chegar. E de facto, tanto em Portugal como em Angola há
razões para tentar enxertar alguma seriedade no processo de candidatura deste
país à CPLP.
Esta é uma
ocasião de ouro para Paulo Portas, que detém a pasta dos Negócios Estrangeiros
se posicionar sobre esta matéria do lado da defesa da língua portuguesa bem
como dos direitos humanos, com o apoio do Presidente português.
Do ponto de
vista dos restantes países, também é importante realçar que Angola pode também marcar
algum distanciamento dos regimes mais repressores de África. Segundo um
relatório recente do Economist
Intelligence Unit, Angola deverá ultrapassar a África do Sul, actualmente a
maior economia do continente, até 2016. As eleições que irão ter lugar em
breve, bem como o planeamento da saída de José Eduardo dos Santos de cena
aconselham prudência no acolhimento de um petroditadura como a Guiné Equatorial
como membro de pleno direito da CPLP. Seria totalmente contraproducente com a
agenda de normalização política que Angola tem vindo a desenvolver
recentemente.
(Do Jornal de Negócios de ontem)
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